O general Collin Powell, ex-secretário de Estado americano, acabou de declarar seu apoio ao candidado a presidência da república pelo partido democrata, Barack Obama.
No programa sobre política Meet The Press, da rede americana NBC, Powell afirma que seu apoio a Obama independe da questão racial, embora ambos sejam negros.
Na sua opinião, o democrata tem a "capacidade de inspirar" e "incluir" os americanos.
O apoio de Colin Powell pode ter um peso decisivo para a campanha de Barack Obama, que sofreu algumas quedas após a nomeação de Sarah Palin como vice de McCain, candidato a presidência da república pelo partido Republicano, de Bush.
domingo, 19 de outubro de 2008
Rapidinhas
O presidente do Equador, Rafael Correa, afirmou ontem que a Petrobras (que opera o Bloco 18, na região amazônica equatoriana, onde produz 32 mil barris de petróleo por dia) assinou o acordo com o governo aceitando as novas regras para a exploração petrolífera no país. Isso deve colocar um ponto final no impasse que teve início há duas semanas.
As novas regras estabelecem que o Estado arrecada todo o lucro obtido com a extração do petróleo, em troca do pagamento dos custos de produção. Apenas uma margem do lucro vai para as empresas estrangeiras (antes, a arrecadação do Estado era de apenas 18% do lucro do petróleo).
Mas a tensão continua de outro lado...
Apesar de Correa afirmar que a expulsão da construtora brasileira Odebrecht é um assunto entre o Estado e uma empresa privada, e não um conflito entre Brasil e Equador, o clima anda tenso. Após a expulsão, o Itamaraty adiou sua visita a Quito, e, por tabela, a discussão sobre a construção do corredor rodofluvial entre Manaus e o porto de equatoriano de Manta, que dará ao Brasil uma saída comercial no Pacífico.
Além disso, o Equador ainda mantém a posição de não pagar a dívida de US$ 243 milhões contraída no BNDES para a construção da usina hidrelétrica San Francisco. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a relação comercial com o Equador pode acabar se o governo andino não honrar o pagamento da dívida.
Bom, é hora de acertar os ponteiros.
sábado, 18 de outubro de 2008
CS - ONU 2009/2010

Já temos novidades sobre a Liga da Justi...ops...sobre o Conselho de Segurança da ONU: Turquia, Áustria e Japão conquistaram assentos não permanentes no Conselho de Segurança na sexta-feira (17/10), derrotando a Islândia e o Irã nas eleições na Assembléia Geral. A Turquia e a Áustria venceram a Islândia e agora representam, juntamente com a França e Reino Unido (membros permanentes), o bloco europeu. Na disputa para a única vaga rotativa disponível para a Ásia, advinha quem ganhou? Japão. Surpresos? Claro que não, afinal ninguém imaginou que iriam repetir o mesmo erro de ter deixado Ruanda ocupar um assento no início dos anos 90, usando isso para impedir resoluções contra a violência no país.
O Japão derrotou facilmente o Irã com 158 votos contra 32.Temos também Uganda, representando a África, e o México, sendo eleito como representante da América Latina.
Esses países assumem, então, cinco vagas não permanentes do Conselho de Segurança, de 15 assentos, para as sessões do biênio de 2009 e 2010.
A eleição para o Conselho de Segurança é altamente disputada, ainda mais nos dias de hoje, onde muitos países argumentam que o Conselho não reflete a nova ordem mundial, o que de fato é uma grande verdade.
Criado na Segunda Guerra, o Conselho tem como membros permanentes países que representavam a ordem mundial vigente na época. É absolutamente incompreensível que países como Alemanha e Japão (e ainda arrisco dizer Brasil) ainda estejam fora do Conselho de Segurança. Vale lembrar que os dois países foram os maiores perdedores da Segunda Guerra.
Nas eleições para o Conselho de Segurança, as regiões tentam criar um consenso em torno de um candidato para evitar a uma campanha desgastante. A Uganda foi nomeada para o assento da África deste ano e o México pela América Latina. A maior parte dos diplomatas já esperava que o Japão venceria com facilidade a disputa pela vaga da Ásia, pelo motivo já citado anteriormente. O Irã, contudo, argumentou que merecia a vaga, pois não participa do conselho desde 1956, enquanto o Japão serviu nove vezes, a última em 2006. Porém, há um impasse do país com o Conselho sobre a questão nuclear, com três rodadas de sanções pesando sobre o Irã. Não teve jeito.
Criado na Segunda Guerra, o Conselho tem como membros permanentes países que representavam a ordem mundial vigente na época. É absolutamente incompreensível que países como Alemanha e Japão (e ainda arrisco dizer Brasil) ainda estejam fora do Conselho de Segurança. Vale lembrar que os dois países foram os maiores perdedores da Segunda Guerra.
Nas eleições para o Conselho de Segurança, as regiões tentam criar um consenso em torno de um candidato para evitar a uma campanha desgastante. A Uganda foi nomeada para o assento da África deste ano e o México pela América Latina. A maior parte dos diplomatas já esperava que o Japão venceria com facilidade a disputa pela vaga da Ásia, pelo motivo já citado anteriormente. O Irã, contudo, argumentou que merecia a vaga, pois não participa do conselho desde 1956, enquanto o Japão serviu nove vezes, a última em 2006. Porém, há um impasse do país com o Conselho sobre a questão nuclear, com três rodadas de sanções pesando sobre o Irã. Não teve jeito.
A escolha dos candidatos e a própria candidatura depende do quão bom os países têm sido, se têm se comportado bem e feito as lições de casa direitinho. É um pouco como candidatar-se para uma escola de prestígio: você tem que provar que é um bom candidato. Na ONU, isso significa, em primeiro lugar, demonstrar um interesse ativo na paz e em questões de segurança, como a Turquia, por exemplo, que contribui com pessoal para operações de paz em quatro países. Em segundo lugar, os candidatos precisam mostrar que estão trabalhando para melhorar o ambiente (China e EUA precisam fazer melhor suas lições de casa...) e aliviar a pobreza.
Para aqueles que estão se perguntando: e o Brasil? Bom, apresentamos em Maio de 2005 (juntamente com nossos colegas do G4: Alemanha, Índia e Japão) uma proposta para ampliar o Conselho de Segurança de cinco para onze membros permanentes. Evidentemente que os recalcados de plantão Argentina (tinha que ser...), Paquistão e China já colocaram as asinhas de fora para impedir a entrada do Brasil, Índia e Japão, respectivamente.
Os EUA, muito convenientemente, dizem basicamente que apóiam a expansão do Conselho, mas sem os novos membros terem poder de veto. Engraçadinhos, não?
Para aqueles que estão se perguntando: e o Brasil? Bom, apresentamos em Maio de 2005 (juntamente com nossos colegas do G4: Alemanha, Índia e Japão) uma proposta para ampliar o Conselho de Segurança de cinco para onze membros permanentes. Evidentemente que os recalcados de plantão Argentina (tinha que ser...), Paquistão e China já colocaram as asinhas de fora para impedir a entrada do Brasil, Índia e Japão, respectivamente.
Os EUA, muito convenientemente, dizem basicamente que apóiam a expansão do Conselho, mas sem os novos membros terem poder de veto. Engraçadinhos, não?
Bom, discussões sobre a reformulação do Conselho de Segurança estão em andamento e, enquanto nada se resolve, vamos tocando o barco.
De qualquer forma, vale lembrar que o Brasil é um país de natureza histórica pacífica, tendo se apresentado para ser mediador de conflitos em muitas situações de arbitragem internacional, além de potência líder no bloco da América Latina. O Brasil é, paralelamente, o grande recordista de participação no Conselho de Segurança da ONU em todos os anos: 19 vezes, seguidos de Japão e Argentina.
Para os que gostam das teorias da conspiração, os perseguidos e os desconfiados, vale ressaltar que todos os países têm direito a voto, portanto nenhum foi considerado pequeno demais para fazer lobby. Nauru, Tuvalu e Palau tiveram o mesmo peso que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - EUA, China, Rússia, Reino Unido e França - que nunca têm que concorrer.
domingo, 12 de outubro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
E a novela continua
A aprovação do pacote de salvamento dos Estados Unidos foi por água abaixo dia 29/09, quando os deputados norte-americanos votaram contra o pacote de resgate dos bancos de US$ 700 bilhões de dólares.
Com isso, bolsas do mundo inteiro sofreram queda, inclusive a Bovespa, que registrou a maior queda dos últimos nove anos.
Depois de toda essa confusão, Mr. Bush informou estar "muito desapontado" com a rejeição. E ainda há o fato de que o texto rejeitado hoje não pode ser encaminhado novamente à Câmara.
Quem votou contra o pacote, por sua vez, argumentou que a aprovação do plano ocorreria por medo, o mesmo sentimento que levou o país à guerra contra o Iraque, disseram. Existe desculpa mais mal formulada do que esta?
Digo-lhes o porquê do sonoro NÃO: o projeto apresentado pelo Congresso limita os poderes do Executivo para gerir o pacote, estreita a vigilância sobre a aplicação dos recursos e reduz os pagamentos milionários aos grandes executivos por trás das instituições financeiras que quebraram.
Apesar da negativa da câmara, o Senado endossou fortemente o plano de resgate econômico de US$ 700 bilhões na quarta-feira (02/10). Diferente da rejeição do plano pela Câmara, uma coalizão bipartidária de senadores - incluindo ambos os candidatos presidenciais - não exibiu hesitação em apoiar uma proposta que obteve rejeição pública, apesar da oposição ter cedido um pouco após o despencar dos mercados em conseqüência da derrota do plano na Câmara. A margem no Senado foi de 74 a 25 votos a favor da iniciativa da Casa Branca de comprar os ativos com problemas e evitar a catástrofe econômica que se prenuncia.
Serão eles capazes de conter a crise ou terão que vender a coroa da Estátua da Liberdade?
Com isso, bolsas do mundo inteiro sofreram queda, inclusive a Bovespa, que registrou a maior queda dos últimos nove anos.
Depois de toda essa confusão, Mr. Bush informou estar "muito desapontado" com a rejeição. E ainda há o fato de que o texto rejeitado hoje não pode ser encaminhado novamente à Câmara.
Quem votou contra o pacote, por sua vez, argumentou que a aprovação do plano ocorreria por medo, o mesmo sentimento que levou o país à guerra contra o Iraque, disseram. Existe desculpa mais mal formulada do que esta?
Digo-lhes o porquê do sonoro NÃO: o projeto apresentado pelo Congresso limita os poderes do Executivo para gerir o pacote, estreita a vigilância sobre a aplicação dos recursos e reduz os pagamentos milionários aos grandes executivos por trás das instituições financeiras que quebraram.
Apesar da negativa da câmara, o Senado endossou fortemente o plano de resgate econômico de US$ 700 bilhões na quarta-feira (02/10). Diferente da rejeição do plano pela Câmara, uma coalizão bipartidária de senadores - incluindo ambos os candidatos presidenciais - não exibiu hesitação em apoiar uma proposta que obteve rejeição pública, apesar da oposição ter cedido um pouco após o despencar dos mercados em conseqüência da derrota do plano na Câmara. A margem no Senado foi de 74 a 25 votos a favor da iniciativa da Casa Branca de comprar os ativos com problemas e evitar a catástrofe econômica que se prenuncia.
Serão eles capazes de conter a crise ou terão que vender a coroa da Estátua da Liberdade?
domingo, 5 de outubro de 2008
As mazelas do capitalismo

Ao oferecer um empréstimo de último minuto de US$ 85 bilhões ao American International Group (AIG), a seguradora em dificuldades, os Estados Unidos deram as costas às virtudes do livre mercado e aos riscos de intervenção do governo, e certamente minou futuros esforços americanos para promover essas políticas no exterior.
Para os oponentes do livre mercado na Europa e em outros lugares esta é uma oportunidade de ouro que não será esquecida, uma vez que os Estados Unidos negaram seus princípios fundamentais em seu comportamento.
É verdade que temos que considerar que crises financeiras anteriores na Ásia, Rússia e México obrigaram os governos a intervir, porém, esta é a primeira vez no coração do capitalismo, o que é enormemente mais prejudicial em termos de credibilidade da economia de mercado.
Vamos lembrar que no final dos anos 90, quando o FMI ofereceu US$ 20 bilhões para ajudar a Coréia do Sul a sobreviver à crise financeira asiática, uma das condições impostas foi a de que o governo sul-coreano deixasse os bancos e empresas em dificuldades falirem em vez de socorrê-los. O AIG está em uma liga diferente por causa da amplitude de seus negócios e suas extensas operações no exterior, especialmente na Ásia.
O motivo real pelo qual os Estados Unidos optaram por salvar o AIG é porque apesar da empresa, com sede em Nova York, ser mais conhecida pela venda de produtos convencionais como apólices de seguro e planos de previdência privada supervisionados pelos reguladores nos Estados Unidos, ela também está profundamente envolvida no mercado opaco e de risco de derivativos e outros instrumentos financeiros complicados, que operam em grande parte fora da regulação. Além da ameaça às apólices de milhões de consumidores comuns, foi a ameaça representada por estes instrumentos financeiros arcanos que levou Washington a socorrer o AIG.
A discussão fica à margem de se os Estados Unidos erraram ou não na tomada de sua decisão, o fato é que eles perderam credibilidade para pressionar pela abertura de mercados no exterior para a concorrência estrangeira e pela liberalização das economias.
Quem quer dinheiro? Háháê, híhí...

Já escrevi sobre isso uma vez, escrevo novamente, e escreverei sempre: em pleno século XXI, o país que tanto fala em liberdade só faz fomentar a guerra. O que você acha que representam 700 BILHÕES DE DÓLARES, de fato? Pode-se dizer que mesmo levando em conta a inflação e o contexto dos gastos federais atuais, US$ 700 bilhões é uma soma enorme. Ela representa mais de US$ 2.000 dólares para cada homem, mulher e criança dos Estados Unidos. Resumindo mais ainda, US$ 700 bilhões são mais do que o Produto Interno Bruto anual da Argentina e Chile juntos, de acordo com almanaques atuais. E representam quase 70% do PIB do Canadá.Mas para ficar verdadeiramente impressionado com o verdadeiro valor de US$ 700 bilhões, basta olhar para quanto dinheiro o governo dos Estados Unidos gasta em programas sociais e, pior ainda, o quanto ele gastou em guerras ao longo dos anos.A soma é mais ou menos o quanto o Pentágono, sede do departamento de defesa dos EUA, espera gastar no ano fiscal que termina em 30 de setembro, incluindo os custos das campanhas no Iraque e Afeganistão. A informação é do Centro de Controle e Não-Proliferação de Armas, um grupo de pesquisa de Washington, que citou números do Serviço de Pesquisa do Congresso e dados do Departamento de Administração e Orçamento.Novamente, calculando em dólares de 2007, US$ 700 bilhões seriam suficientes para pagar mais de 20% do que os Estados Unidos gastaram na Segunda Guerra Mundial, diz o grupo de pesquisa. A soma é quase duas vezes o que o país gastou na Primeira Guerra, e muito mais do que o dobro do que gastou na guerra da Coréia.Impressionante? Sem dúvida. Querem mais? US$ 700 bilhões são mais de 40 vezes o que a NASA gastará neste ano fiscal. Chega, não?
Sarah Palin nos tempos de Madonna: like an ace!
Ainda que com atraso, não posso deixar de fazer um pequeno comentário sobre a nomeação de Sarah Palin como vice-presidente de John McCain, candidato à presidência dos EUA pelo partido republicano.
O anúncio oficial foi feito dia 29 de Agosto, pelo próprio McCain.
Sarah Palin tem apenas 44 anos e é a atual governadora do estado do Alasca. É casada com Todd Palin, com quem tem 5 filhos, sendo o mais novo portador da Síndrome de Down.
Palin é uma das representantes da ala conservadora do partido republicano, é contra o casamento gay, contra o aborto e pode-se dizer que focou seu governo em políticas para uso de recursos energéticos e naturais, principal riqueza do Alasca.
Em relação à McCain, bom, é fato que com um amigo como Bush, quem precisa de inimigos?
Sendo assim, a nomeação de Palin para a vice-presidência pelo partido republicano surge como um ás na manga para McCain em vários aspectos.
A escolha pela governadora do Alasca é uma grande tentativa de ganhar os votos das mulheres que ficaram decepcionadas com a derrota de Hillary Clinton para Barack Obama, nas prévias do partido democrata. Apesar da popularidade do candidato democrata, uma pesquisa mostrou que uma boa parte das pessoas que estavam dispostas a dar seu voto para Hillary, não pensa em transferi-lo para Obama tão facilmente.
Além disso, Palin e seus somente 44 anos chegam para tentar equilibrar dois pontos fracos do partido republicano: o peso dos 72 anos de McCain, completados no dia 28 de Agosto e a imagem arranhada de George Bush. Com ela como vice-presidente, o partido republicano sugere a mesma juventude e renovação que tem dado à Obama a popularidade adequada e conveniente.
Ainda que a indicação de Sarah Palin tenha sido bastante criticada pela falta de experiência governamental e pela não exposição nacional da governadora, os números mostram que antes de ter anunciado seu vice, McCain contava com a opinião propícia de 42% de seus correligionários, que agora é 54%.
Enquanto o avental ainda é o algoz...
Em pleno século XXI, é lamentável ter que escrever uma matéria como essa e juntar a coisas já escritas sobre o assunto anteriormente, mas, sem dúvida, isso é um dos maiores absurdos que ainda existem no mundo "moderno"...ou pelo menos, que se acha "moderno". Em razão dos abortos, dos infanticidas e da carência de cuidados com as meninas, faltariam hoje 90 milhões de mulheres na Ásia. É um número que conta de uma forma que lhe é própria o drama silencioso das desigualdades entre homens e mulheres na China: em 2006, se deixarmos de lado as crianças acometidas de patologias, cerca de 98% das crianças chinesas disponíveis para adoção e apresentadas pela organização Médicos do Mundo eram meninas.
"Na maioria dos casos, elas são abandonadas nos dias que se seguem ao nascimento", explica a pediatra Geneviève André-Trevennec, que dirige a missão pela adoção desta entidade, a maior empreitada francesa desta natureza. "Com a política do filho único, que é aplicada com rigor nas cidades, os pais não querem mais ter uma filha porque são os rapazes que transmitem o nome e que se encarregam de sustentar seus pais quando estes envelhecem".
A China não é o único país a ser atingido por esta preferência marcante em favor dos meninos: segundo a demógrafa Isabelle Attané, a Ásia tornou-se o "continente negro" das mulheres. Em razão dos abortos seletivos, dos infanticidas e da carência de cuidados para com as meninas, segundo ela faltariam 90 milhões de mulheres na Ásia.
Esta anomalia demográfica, que foi denunciada já em 1990 pelo economista Amartya Sen em artigo publicado na revista "New York Review of Books", atinge a China, a Índia e o Paquistão, assim como o Bangladesh, Taiwan ou a Coréia do Sul. Se fosse aplicada para a Ásia uma taxa de masculinidade "normal" de 98 homens para 100 mulheres - para calculá-la, os demógrafos levam em conta a proporção natural de meninas e de meninos no nascimento, as diferenças de mortalidade infantil entre os dois sexos e a defasagem de esperança de vida entre os homens e as mulheres -, este continente contaria 90 milhões de mulheres suplementares.Onde foram parar esses milhões de mulheres? "São meninas que foram impedidas de nascer, que foram mortas depois do nascimento ou que deixaram morrer quando muito novas", resume Bénédicte Manier no seu livro "Quand les femmes auront disparu" ("Quando as mulheres tiverem desaparecido", editora La Découverte, 2006). Com o desenvolvimento da ultra-sonografia, as famílias da Índia, da China, de Taiwan ou da Coréia do Sul podem conhecer o sexo do seu filho antes do nascimento."
A China proíbe identificar o sexo do feto durante a ultra-sonografia, mas basta um sinal do médico para saber se é um menino ou uma menina", conta Isabelle Attané, que publicou em 2005 "Une Chine sans femmes?" ("Uma China sem mulheres? ", editora Perrin). Hoje, diz ela, "a estimativa é que mais de 500.000 fetos femininos são suprimidos desta forma todo ano na China".
Este culto do menino, que é uma tradição na Ásia, foi agravado ao longo das últimas décadas pela redução do número de crianças de uma mesma família. Com a política chinesa do filho único e a diminuição da fecundidade em países tais como a Índia ou a Coréia do Sul, o sexo das crianças passou a ter uma importância decisiva. "Quando a fecundidade era elevada, uma família dificilmente acabava ficando sem nenhum menino", comenta o demógrafo Gilles Pison num estudo publicado em 2004 pela revista "Population et sociétés" (População e sociedades), uma publicação do Ined. "Com seis filhos, a probabilidade de não ter meninos é muito reduzida, inferior a 2%. Ao passo que com dois filhos, esta probabilidade está próxima de um quarto".
Na Ásia, os abortos seletivos transformaram por completo o equilíbrio entre os sexos no nascimento. Enquanto nas áreas onde não existem discriminações, nascem 105 meninos para 100 meninas, certas regiões do continente apresentam taxas de masculinidade no nascimento mais que suspeitas. Segundo Isabelle Attané, nascem atualmente 117 meninos para 100 meninas na China e 111 na Índia.
Em certas regiões, os números são ainda mais impressionantes: os Estados indianos do Pendjab e da Haryana recensearam, no período de 1998 a 2000, 125 nascimentos de meninos para cada 100 de meninas. Nas províncias chinesas do Jiangxi e do Guangdong, em 2000, o número de meninos havia alcançado 138 para cada 100 meninas.
As discriminações não se limitam ao nascimento. Basta comparar a taxa de mortalidade infantil dos dois sexos para compreender que na Ásia, as famílias não atribuem o mesmo valor à vida de um menino e de uma menina. Na Europa, na África, na América do Norte e na América do Sul, a taxa de mortalidade infantil masculino é sempre superior à taxa feminina, por razões biológicas, mas a Ásia desafia as leis naturais, apresentando - mais uma vez - um desequilíbrio marcante em detrimento das meninas. No Bangladesh ou no Paquistão, e, sobretudo, na China, a sua taxa de mortalidade antes da idade de um ano é nitidamente superior àquela dos meninos.
Como explicar esta mortalidade excessiva das meninas recém-nascidas do continente asiático? "Elas são simplesmente vítimas de negligência nos cuidados médicos e na alimentação que elas recebem", explica Isabelle Attané. "Os programas de vacinação são mais respeitados quando se trata de um menino e, quando eles estão doentes, eles são conduzidos rapidamente até o médico, ao passou que os pais tardam a fazê-lo para uma menina". "A alimentação, ela também, é diferente dependendo do sexo das crianças", explica a pesquisadora. "Na Ásia, muitos pais fazem de tudo para manter o seu filho com boa saúde, ao passo que eles consideram como menos grave a possibilidade de perder uma filha".
Se os meninos são bens tão preciosos, é por razões culturais que variam geralmente de um país para o outro. Na China, os filhos herdam os bens da família e, sobretudo, eles cuidam dos seus pais quando estes se tornam mais idosos, o que constitui uma tarefa fundamental num país que não dispõe de nenhum sistema organizado de aposentadoria. Na Índia, é a tradição do dote que dá azar para as meninas: quando do seu casamento, elas devem oferecer aos seus sogros uma quantia importante que não raro obriga as famílias de renda modesta a se endividarem. Nas regiões hinduístas, somente um rapaz pode acender a fogueira funerária dos seus pais, o que lhes permite escapar da errância eterna.
Ao longo das próximas décadas, este desequilíbrio em favor dos meninos modificará profundamente o perfil do continente asiático. "Os rapazes correm o risco de sofrer os seus efeitos durante a sua vida inteira, principalmente quando eles terão idade para formar um casal", sublinha o demógrafo Gilles Pison na revista "População e Sociedades". "As jovens mulheres, minoritárias, não terão dificuldades para encontrar um cônjuge, enquanto uma parte dos rapazes acabará ficando sem uma parceira".
Esta situação, que já vem provocando atos de violência contra as mulheres e tráficos de esposas, será agravada por uma incerteza demográfica: ao dar preferência aos meninos, a Ásia está inventando uma sociedade que, no futuro, contará menos mulheres, e, portanto, menos crianças. Inclusive menos meninos.
Não estaria na hora das feministas bastante preocupadas em rasgar o avental e vestir paletó e gravata se preocuparem com o que é de fato relevante para as mulheres da nossa sociedade?
China e Índia: frente a frente
Unidos pela desigualdade e a poluição, os dois países são lugares muito desagradáveis para viver e de extremas dificuldades para 1 bilhão de pessoas. Somente 77% da população chinesa têm acesso à água limpa, contra 86% na Índia. Enquanto a economia cresce, a poluição e a desigualdade também aumentam.
Um relatório do semanário "Economic and Political Weekly", de Bombaim, baseado no Relatório sobre Desenvolvimento Humano da ONU, oferece uma comparação desconcertante entre os dois gigantes asiáticos, sem dúvida gigantes com pés de barro.A publicidade de uma escola para ricos em Bombaim (Índia) anuncia que ali são servidas às crianças "comida de diversas tradições: mexicana, indiana e chinesa, água mineral garantida e frutas e verduras de fazendas ecológicas".
O anúncio contrasta com a descrição que um observador dessa cidade faz da Índia: "É o país que tem mais crianças fora da escola e mais analfabetos no mundo". Outra cena, esta em Benares: um grupo de mendigos aguarda que um restaurante termine a jornada. Esperam as sobras do dia. É uma imagem que não se vê na China, mas esta, sendo muito mais próspera e moderna, também é mais desigual que a Índia. Desigual nas rendas de seus cidadãos e também entre suas regiões.
O chamado coeficiente Gini, que mede o nível de desigualdade de renda entre as pessoas, é muito mais alto na China (44,7) que na Índia (32,5). A relação entre o consumo dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres é superior a 10 na China e não chega a 5 na Índia. Entre regiões, a renda per capita na região mais rica da China (Xangai) é 13 vezes maior que a da província mais pobre (Guizhou). Na Índia, Chandigarth supera Bihar em nove vezes.
Que a China lidere em desigualdade não significa que a situação seja melhor na Índia, onde há mais de 400 milhões de camponeses pobres, com renda anual de 290 euros, e que ganham o mesmo que o famoso milhão de engenheiros de software indianos.
"Nossa taxa de crescimento é a inveja de muitos, temos 100 mil milionários em dólares e nosso índice de mortalidade infantil desacelerou, mas a Índia responde anualmente por 2,5 milhões de mortes infantis e nos últimos dez anos 112 mil agricultores se suicidaram, a maioria deles angustiada por dívidas", diz P. Sainath, especialista em assuntos agrícolas do jornal "The Hindu". "Somos o quinto 'ciberpaís' do mundo, mas mais de um quinto de nossa população não pode se permitir nenhum tipo de assistência médica", acrescenta. A Índia tem cinco vezes mais crianças com menos de 5 anos sofrendo desnutrição que a China.O sucesso da China cobra uma vultosa fatura energética e ecológica. A situação das águas - lagos, rios e abastecimento urbano - é pior na China, onde só 77% da população têm acesso a água limpa hoje, contra 86% na Índia.
Quando as previsões dos grandes centros e bancos da globalização anunciam, ignorando as incertezas da economia global, que nas próximas décadas a China dominará a economia mundial, com a Índia um pouco atrás, deve-se perguntar também pela tendência oculta dessa corrida. Os dois países são hoje lugares muito desagradáveis para se viver e de extremas dificuldades para 1 bilhão de seres humanos.
Passo de Caranguejo

Prêmio Nobel de Literatura de 1999, o alemão Günter Grass, 75 anos, disse certa vez que os filhos e netos de sua geração não deveriam se sentir culpados pelas atrocidades do nazismo, mas que devem fazer de tudo para que elas não voltem a acontecer.
Em Passo de Caranguejo, Grass põe como narrador um homem nascido no crepúsculo da Segunda Guerra que vai percebendo, através de visitas a uma página da Internet, que seu filho é um neonazista capaz de pensamentos e atos brutais. Como é habitual no estilo cortante de Grass, mais interessado em fazer o leitor pensar do que lacrimejar, a descoberta que Paul Pokriefke faz das atividades do filho Konny não vem acompanhada de dramas e melodramas, mas de reflexões sobre o seu papel de pai ausente, sobre o fracasso da postura de pedagoga libertária de sua ex-mulher, a influência danosa que a avó nazista exerceu sobre Konny e, em última instância, sobre a presença ainda forte na Alemanha e no mundo da intolerância, da xenofobia e das mais truculentas idéias de nacionalismo.
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